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Mandado de Captura de Wiranto Interferência Política
no Processo dos Crimes Graves
Comunicado à Imprensa: 22 de Junho de 2004
O decorrer
do processo dos crimes graves sofreu mais um golpe a que dificilmente
se podia ter dado ao luxo. Devido à precária situação
económica de Timor Leste, o Presidente da República
e o Governo consideram ser muito mais importante manter boas relações
com a Indonésia do que responder à vontade de se fazer
justiça reivindicada pela população. Uma imagem
de peso diz mais do que mil palavras: o abraço sorridente
de dois antigos inimigos em Bali, o Presidente Xanana Gusmão
e o antigo General Wiranto. Contudo, por todo Timor Leste, vítimas
demonstram bastante menos vontade de abraçar os antigos inimigos.
A tensão mantém-se nas comunidades onde os agentes
dos crimes vivem lado a lado com as vítimas, e as pessoas
continuam à espera da justiça que lhes foi prometida
pelas Nações Unidas (O.N.U.). Muitos são também
os que receiam o regresso de antigos membros das milícias
da Indonésia causada pela diminuição da presença
da O.N.U e pela sua saída eminente.
Não pode
haver verdadeira reconciliação entre a Indonésia
e Timor Leste enquanto não for feita justiça. Até
lá, demonstrações públicas de afecto
para com Wiranto podem assegurar a viabilidade económica
de Timor Leste a curto prazo, mas também semeiam as sementes
para futuras tensões e põem em perigo a criação
no futuro de um sistema judicial potencialmente mais eficiente.
Os actos do Presidente Xanana Gusmão têm lugar num
momento crucial. O Secretário-Geral das Nações
Unidas está a atrasar a criação de uma Comissão
de Peritos para analisar os julgamentos dos dois tribunais ad hoc,
o Tribunal dos Direitos Humanos em Jakarta e do Colectivo para Crimes
Graves em Dili. Caso este órgão considere que os julgamentos
destes tribunais não foram capazes de estabelecer a culpa
dos responsáveis, então aumenta a possibilidade de
obter apoio internacional para futuros julgamentos. Mas dada a atitude
de “esquecer e perdoar” do Governo de Timor Leste e
o receio extremo de países como os Estados Unidos de ofender
a Indonésia, a comunidade internacional tem todas as razões
para deixar Timor Leste sair do radar da justiça penal internacional.
O mandado de
captura nacional de Wiranto ilustra a complexidade da situação.
O mandado foi ordenado por um juiz internacional financiado pela
O.N.U. a 10 de Maio de 2004, a actuar sob a autoridade do poder
judiciário de Timor Leste. No dia seguinte, o Procurador
Geral da República pediu autorização para alterar
a acusação de Wiranto, muito provavelmente numa tentativa
de revogar o mandado. Há fortes indícios de que os
actos do Procurador Geral se deveram a intensas pressões
políticas. Há um ano atrás tinha apoiado a
acusação de Wiranto e a sua mudança de posição
foi sem dúvida influenciada pelas declarações
do Presidente a criticar o mandado. Todavia, neste momento, o mandado
continua em vigor uma vez que o Tribunal recusou o pedido do Procurador
Geral.
Este mandado
não terá consequências a nível internacional
a menos que o Procurador Geral decida comunicá-lo à
INTERPOL. Neste momento o Procurador Geral afirma que não
o fará. Mas isso é algo de diminuta importância
já que a INTERPOL é fundamentalmente uma rede de comunicação
que actua com base na cooperação entre os estados
membros e não tem autoridade para obrigar um país
a entregar os suspeitos. Contudo, outras possibilidades existem
para julgar Wiranto se ele viajar para o estrangeiro, tal como o
julgamento num país terceiro, possivelmente com base no conceito
de direito internacional de jurisdição universal.
A tentativa de
revogar o mandado contra Witanto é compreensível,
mas não justificável. Wiranto é um candidato
de grande peso nas próximas eleições presidenciais
Indonésias, e o mandado sem dúvida que coloca Timor
Leste numa posição difícil. Parece contudo
que o Presidente e o Governo foram longe demais para agradar, em
vez de acalmar a Indonésia. Em vez de minimizar o impacto
da situação com Wiranto, o Governo ignorou a vontade
do povo de ver justiça ser feita, subvertendo por completo
o processo de crimes graves e potencialmente prejudicando o futuro
apoio internacional de julgamentos.
Talvez a esperança
para julgamentos eficazes esteja numa mudança dramática
na política Indonésia de cooperação
na entrega de suspeitos. Isto pode levar 10 anos ou mais. A menos
que o Governo de Timor Leste apoie o julgamento de Indonésios,
a possibilidade de realização de julgamentos no futuro
está grandemente diminuída.
É alarmante
que a situação de Wiranto possa ter criado um dano
irreparável nas relações entre os procuradores
da O.N.U. e o seu superior, o Procurador Geral. A JSMP crê
que pelo menos um procurador se demitiu por este motivo. A JSMP
reconhece que neste momento se vive uma complexa situação
política contudo, é essencial para os julgamentos
presentes e futuros de crimes contra a humanidade que ambas as partes
trabalhem juntas. No mínimo, ambas as partes necessitam de
desenvolver um sistema de preservação de prova e uma
estratégia eficaz para o término da intervenção
internacional em Maio de 2005.
A JSMP receia
interferência política na situação de
Wiranto. A decisão de ordenar um mandado contra Wiranto não
é uma questão do foro governamental mas sim uma questão
a ser tratada num tribunal judicial. Sempre que o governo interfere
com o processo judicial, diminuem-se o Estado de Direito e a democracia.
Os procuradores de Timor Leste, quer sejam financiados pela ONU
quer não, devem estar livres de interferência política
para poderem desempenhar os seus cargos de acordo com a lei. Caso
contrário, são violadas as provisões constitucionais
referentes à independência judiciária, à
adopção de princípios legais internacionais
e da função do Estado de garantia de direitos fundamentais
aos cidadãos. Assim a JSMP encoraja as vítimas a procurarem
remédios através dos tribunais de forma a assegurarem
a protecção dos seus direitos constitucionais.
É difícil
subestimar a importância da Indonésia para o futuro
de Timor Leste. Contudo, só com um processo judicial eficaz
para os crimes cometidos durante e depois da ocupação
Indonésia pode ser iniciada uma verdadeira reconciliação.
Tudo o que seja inferior a isto, conduzirá a uma insatisfação
popular generalizada e a tensões na comunidade.
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