Comunicado à imprensa: 19 Julho 2004
Hoje, o Programa de Monitorização do Sistema Judicial
(JSMP) assinou uma declaração conjunta a par com 106
pessoas a título individual que vai ser enviada ao Secretário
Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, apelando a que
este proceda à criação de uma Comissão
de Peritos para analisar os julgamentos do Colectivo para Crimes
Graves em Dili e do Tribunal Ad Hoc de Direitos Humanos para Timor
Leste em Jakarta. Entre os signatários encontram-se indivíduos
de várias organizações tais como a Comissão
de Acolhimento, Verdade e Reconciliação (CAVR), da
Aliança Nacional para um Tribunal Internacional em representação
de 28 ONGs, grupos de apoio às vítimas, organizações
de apoio judiciário, representantes comunitários,
estudantes e professores universitários.
A declaração expressa o apoio da comunidade Timorense
e dos seus líderes à criação de uma
Comissão que analise estes processos que até agora
não foram capazes de trazer justiça e estabelecer
responsabilidade. De momento, o Governo de Timor Leste não
se mostra activo em apoiar esta iniciativa de interesse vital. O
Governo prefere uma atitude de perdoar e esquecer que centra a sua
atenção em manter boas relações com
a Indonésia. O Presidente Xanana Gusmão abraça
o antigo general e Comandante das Forças Armadas Indonésias,
Wiranto, enquanto membros Timorenses das milícias que ocupavam
postos baixos servem penas de prisão. O facto de tal se verificar
em paralelo com a impunidade de altos comandantes e oficiais indonésios
ilustra a presente situação de injustiça..
Assim, a solução não é abandonar as
iniciativas de julgar crimes passados mas antes assegurar que peritos
internacionais de alto nível possam fazer recomendações
em processos futuros.
É da responsabilidade da comunidade internacional agir e
agir agora. O JSMP acredita que o Secretário Geral pretende
adiar a decisão quanto à Comissão de Peritos
até à segunda volta das eleições presidenciais
que terá lugar em Setembro deste ano. Contudo, uma vez que
Wiranto já foi eliminado da corrida presidencial, não
é possível concluir que a criação da
Comissão interfire com política indonésia.
Além do mais, as investigações de casos do
Colectivo para Crimes Graves chegam ao fim em Novembro e os julgamentos
em Maio de 2005. Isto apesar de cerca de 1400 homicídios
não terem sido investigados e de permanecer sem atribuição
de responsabilidade um sem número de outros crimes praticados
durante a ocupação indonésia. Perder a oportunidade
de aperfeiçoar o processo de crimes graves seria um retrocesso
desnecessário. Por isso mesmo deve ser criada de imediato
a Comissão de Peritos de modo a que esta publique as suas
conclusões enquanto o processo dos crimes graves se encontra
ainda em curso.
A consulta que o JSMP levou a cabo junto da população
revelou que a tensão permanece nas comunidades e que tem
potencial para se tornar violenta. Como resultado, o trabalho positivo
da ONU na reconstrução de Timor Leste corre o risco
de se desmoronar a menos que os altos responsáveis por crimes
contra a humanidade sejam julgados. Esta declaração
pública dá provas bastantes de que o povo de Timor
Leste, apesar da posição do Governo, não pode
aceitar a actual situação de injustiça e impunidade.
A Comissão de Peritos deve ser criada e tal deve acontecer
já. A retórica actual da ONU salienta a importância
de envolver a comunidade. Deixe-se que a Comissão de Peritos
seja um exemplo de tornar estas palavras em acções.